Há dois dias eu tomo um copo d'água em jejum porque me mandaram. A água de tacada só me repugna como se o estômago lutasse contra. Vez ou outra eu sei que a água da manhã vai ser a água que sobrou da noite quando não acordei nenhuma vez com a garganta seca de respirar pela boca. Uma água-ambiente, com a energia dos meus pesadelos e tudo. Eu acho até que sempre tive sede quando acordo mas jamais me ocorreria — sem que mandassem, agora me mandaram — despejar 200ml de nada em líquido em jejum pra dentro só pra lubrificar as engrenagens do fígado ou do intestino, preparando terreno.
Só depois uma receita: ou a que finge ser pão de queijo, ou dois ovos em qualquer textura já que são ricos em proteínas (mas sem o tempero pronto cheio de glutamato, hein?). E pão agora só se for aquele com o nome que parece saído de uma missa católica, que o outro é quase um pecado capital. E chia. Gergelim eu me recuso, que eu não sou passarinho pra comer alpiste, então a loja de produtos naturais pela primeira vez me ouviu dizer meio tímida: e chia, tens? Sim, quero chia e chá de cavalinha. Também aquele novo do Harry Potter: Chia & a espinheira santa. Quanto de chia? Ah, muita chia, querida. Chia de balde. Chia no crédito. Chia parcelada em vezes. Chiar tá liberado, para a sorte das panelas de pressão.
Na hora de me servir pro almoço eu volto, meio envergonhada e meio prudente, a abrir a pasta de documentos onde estão as folhas timbradas, carimbadas e rubricadas com todas as minuciosas recomendações de quem paguei pra que acreditasse em mim e nos meus progressos e, por que não dizer, na minha mudança radical à base de fiscalização. Vou conferir quanto era mesmo que eu devia comer de carboidrato, quais folhas verdes seguirei negligenciando porque não fui ao mercado ou acho o gosto muito amargo (só não mais que esse café necessariamente preto porque leite vegetal está pela hora da morte) e qual é mesmo, afinal, o tamanho de uma colher-de-servir? Deve ser essa, eu não tenho outra aqui em casa.
Fim da tarde a maçã na temperatura de geladeira acompanha as o-le-a-gi-no-sas. Parece nome de infecção de IST, percebe? Mas é só um punhado de castanhas mistas que se rompem num crec crec entre os dentes com a pecha de gordura boa no meio do dia. Creio eu que se potencializam. Os ovinhos de codorna eu gosto mais, mas ainda não tentei porque passá-los em água corrente antes de por na boca parece um ultraje a todas as tradições milenares da conserva. Fora o cheiro de lancheira.
A tal versão Orgulho da Nutri, fadada a não durar pra ninguém desde que o mundo é mundo, porque o que dura mesmo é o costume, talvez me ensine pelo menos a ser naturalmente(?!) um pouco mais obediente. A fazer o certo mesmo querendo fazer errado. A temer a mão firme das calorias da tabela nutricional pesando sobre a minha cabeça, apertando o resto do corpo e as recentes dobras de IMC 30+, se fizer a conta da bioimpedância. Disciplina? Agora só se for cozida só no sal ou grelhada com um fiozinho de nada de azeite de oliva. Ou polvilhada com um pouco de farelo integral, que é pra dar uma variada.
Como então eu poderia contar à moça magra tão sorridente e tão saudável do outro lado da mesa a minha verdade suprema do sugar high? Esporádicos cookies de nutella fazem mais por mim que muita gente do meu cotidiano. Às vezes o açúcar deles me desencadeia um mini episódio de mania que dura minutos. Minutos pleníssimos de significado. Olhando daqui talvez ela só finja que não sabe, para ficar bem na personagem, mas eu vou fingir que acredito no exemplo e assim seguimos o nosso ciclo de repetir a falsidade até que se torne verdadeira.
Ensaiei um elogio para os miúdos que já têm isso por hábito desde que nasceram mas ficou muito pesado no ar o fato de que lá em casa a base de todas as refeições, todas mesmo, não era um terço de hortaliça (a que sou negada), e sim nata. Sempre foi nata. Nata de potinho. Uns dois potinhos por semana. O slogan do cheff, pintado à mão na cerâmica dos pratos fartos de friturinhas em óleo de soja, dizia (e ainda diz): Taca-lhe Graxa. No subtexto, arredondado: "a gastrite depois a gente vê".
O exercício de ter que segurar fixas as pelotas dos olhos ao ouvir o adjetivo "integrativa" na mesma frase que as palavras "desinflamação do corpo" deve ser um ritual de entrada nesta missão atroz a que me submeti fundindo a crença em um pouco mais de saúde com o poder avassalador — e mendigo, miserável, sofredor, um coitado invisível — do novo hábito.
Afinal de contas que argumentos científicos eu tenho contra o fato de que somos os únicos animais que bebem leite depois de adultos e ainda nem é da nossa própria mãe, e ainda nem é da nossa própria espécie, e além disso os bezerros foram fabricados com umas bactérias para digerir e nós somos fabricados sem, etcetera? Nenhum, nenhum mesmo. Eu só tenho o apreço pelos derivados e um sonho.
Quer dizer, agora tenho também o inferno que eu fui buscar com as próprias pernas naquele consultório: a obrigação de me provar que se eu quiser mudar, eu posso. Vou ter que apagar o Taca-lhe Graxa da louça toda sabe-se lá com que produto químico e pintar no lugar: Foco no plano.
Hoje já foi um litro e meio.
Carrego a garrafa como o alcoólico anônimo carregaria uma medalha que diz: e já faz dois dias.
Entrarei no carro para fazer roncar o motor silencioso no caminho para a academia sem roncar mais, em borborigmos, aquele estômago de capivara raivosa que eu tinha antes. O Mick Jagger — com sua dieta excêntrica de famoso — me embalará, compadecido e meio sexy, repetindo muitas vezes, no timbre carregado de solidariedade: Old Habits Die Hard.