sexta-feira, 4 de abril de 2025

Coca Zero


A diarista dizendo que ela quer sim frequentar o colégio por nove anos seguidos na próxima encarnação porque nessa não deu
A caixa do supermercado curiosa com os produtos que lhe chegam para bipar
O ranho que escorre do nariz mesmo chorando bonito
O ciclo da água, os rios voadores e o funcionamento da bomba biótica (pifando
A Linha do Equador batizada antes do país pois é um Circulus aequator diei et noctis
O órgão de uma pessoa que vive dentro de outra quando transplantado
A mulher que revira a Bíblia até encontrar um nome próprio exótico para dar ao filho sem saber pronunciá-lo
O filho no colégio, indignado, virando um cientista ateu
A vinheta da Globo que há muito nos avisa que o futuro já começou
Esta madeira frágil que pregamos na entrada da toca do coelho de Alice

Um saber que vira hábito
O hábito que vira costume
O costume que vira terça-feira
As terças-feiras que são sempre as mesmas
Poderiam bem não ser
E ter outro gosto

Não escrevo mais para saber onde vai dar, senão para dar em algo.

terça-feira, 1 de abril de 2025

Mestre mandou

Há dois dias eu tomo um copo d'água em jejum porque me mandaram. A água de tacada só me repugna como se o estômago lutasse contra. Vez ou outra eu sei que a água da manhã vai ser a água que sobrou da noite quando não acordei nenhuma vez com a garganta seca de respirar pela boca. Uma água-ambiente, com a energia dos meus pesadelos e tudo. Eu acho até que sempre tive sede quando acordo mas jamais me ocorreria — sem que mandassem, agora me mandaram — despejar 200ml de nada em líquido em jejum pra dentro só pra lubrificar as engrenagens do fígado ou do intestino, preparando terreno.
Só depois uma receita: ou a que finge ser pão de queijo, ou dois ovos em qualquer textura já que são ricos em proteínas (mas sem o tempero pronto cheio de glutamato, hein?). E pão agora só se for aquele com o nome que parece saído de uma missa católica, que o outro é quase um pecado capital. E chia. Gergelim eu me recuso, que eu não sou passarinho pra comer alpiste, então a loja de produtos naturais pela primeira vez me ouviu dizer meio tímida: e chia, tens? Sim, quero chia e chá de cavalinha. Também aquele novo do Harry Potter: Chia & a espinheira santa. Quanto de chia? Ah, muita chia, querida. Chia de balde. Chia no crédito. Chia parcelada em vezes. Chiar tá liberado, para a sorte das panelas de pressão.
Na hora de me servir pro almoço eu volto, meio envergonhada e meio prudente, a abrir a pasta de documentos onde estão as folhas timbradas, carimbadas e rubricadas com todas as minuciosas recomendações de quem paguei pra que acreditasse em mim e nos meus progressos e, por que não dizer, na minha mudança radical à base de fiscalização. Vou conferir quanto era mesmo que eu devia comer de carboidrato, quais folhas verdes seguirei negligenciando porque não fui ao mercado ou acho o gosto muito amargo (só não mais que esse café necessariamente preto porque leite vegetal está pela hora da morte) e qual é mesmo, afinal, o tamanho de uma colher-de-servir? Deve ser essa, eu não tenho outra aqui em casa.
Fim da tarde a maçã na temperatura de geladeira acompanha as o-le-a-gi-no-sas. Parece nome de infecção de IST, percebe? Mas é só um punhado de castanhas mistas que se rompem num crec crec entre os dentes com a pecha de gordura boa no meio do dia. Creio eu que se potencializam. Os ovinhos de codorna eu gosto mais, mas ainda não tentei porque passá-los em água corrente antes de por na boca parece um ultraje a todas as tradições milenares da conserva. Fora o cheiro de lancheira.
A tal versão Orgulho da Nutri, fadada a não durar pra ninguém desde que o mundo é mundo, porque o que dura mesmo é o costume, talvez me ensine pelo menos a ser naturalmente(?!) um pouco mais obediente. A fazer o certo mesmo querendo fazer errado. A temer a mão firme das calorias da tabela nutricional pesando sobre a minha cabeça, apertando o resto do corpo e as recentes dobras de IMC 30+, se fizer a conta da bioimpedância. Disciplina? Agora só se for cozida só no sal ou grelhada com um fiozinho de nada de azeite de oliva. Ou polvilhada com um pouco de farelo integral, que é pra dar uma variada.
Como então eu poderia contar à moça magra tão sorridente e tão saudável do outro lado da mesa a minha verdade suprema do sugar high? Esporádicos cookies de nutella fazem mais por mim que muita gente do meu cotidiano. Às vezes o açúcar deles me desencadeia um mini episódio de mania que dura minutos. Minutos pleníssimos de significado. Olhando daqui talvez ela só finja que não sabe, para ficar bem na personagem, mas eu vou fingir que acredito no exemplo e assim seguimos o nosso ciclo de repetir a falsidade até que se torne verdadeira.
Ensaiei um elogio para os miúdos que já têm isso por hábito desde que nasceram mas ficou muito pesado no ar o fato de que lá em casa a base de todas as refeições, todas mesmo, não era um terço de hortaliça (a que sou negada), e sim nata. Sempre foi nata. Nata de potinho. Uns dois potinhos por semana. O slogan do cheff, pintado à mão na cerâmica dos pratos fartos de friturinhas em óleo de soja, dizia (e ainda diz): Taca-lhe Graxa. No subtexto, arredondado: "a gastrite depois a gente vê".
O exercício de ter que segurar fixas as pelotas dos olhos ao ouvir o adjetivo "integrativa" na mesma frase que as palavras "desinflamação do corpo" deve ser um ritual de entrada nesta missão atroz a que me submeti fundindo a crença em um pouco mais de saúde com o poder avassalador — e mendigo, miserável, sofredor, um coitado invisível — do novo hábito.
Afinal de contas que argumentos científicos eu tenho contra o fato de que somos os únicos animais que bebem leite depois de adultos e ainda nem é da nossa própria mãe, e ainda nem é da nossa própria espécie, e além disso os bezerros foram fabricados com umas bactérias para digerir e nós somos fabricados sem, etcetera? Nenhum, nenhum mesmo. Eu só tenho o apreço pelos derivados e um sonho.
Quer dizer, agora tenho também o inferno que eu fui buscar com as próprias pernas naquele consultório: a obrigação de me provar que se eu quiser mudar, eu posso. Vou ter que apagar o Taca-lhe Graxa da louça toda sabe-se lá com que produto químico e pintar no lugar: Foco no plano.
Hoje já foi um litro e meio.
Carrego a garrafa como o alcoólico anônimo carregaria uma medalha que diz: e já faz dois dias.
Entrarei no carro para fazer roncar o motor silencioso no caminho para a academia sem roncar mais, em borborigmos, aquele estômago de capivara raivosa que eu tinha antes. O Mick Jagger — com sua dieta excêntrica de famoso — me embalará, compadecido e meio sexy, repetindo muitas vezes, no timbre carregado de solidariedade: Old Habits Die Hard.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Saúde

combinei comigo de fazer
oitentativas
de equilíbrio
sem ser oito
outentar
denovo

sexta-feira, 28 de março de 2025

Carta de exílio

Selma, por que é que eu venho me pegando com os pés tão contraídos, mesmo fora dos sapatos? Na cama, à noite, todos os dedos duros e virados para dentro contra o lençol e o colchão, como se a saúde das minhas unhas dependesse disso. Se meu dedos pudessem, te juro, eles encravariam para dentro das solas, só não fazem porque não alcançam. A mandíbula, então, nem se fala. Vive de um jeito que parece segurar uma faca entre os lábios como último escudo de proteção para que a lâmina mais afiada de todas não me corte a língua.
Eu não quero ter crise de ansiedade nunca mais, Selma. Naquele dia pode ter sido uma queda de pressão, claro que pode, pode ter sido a ressaca ou a privação de sono, podem ter sido o trânsito e o calor do carro preto debaixo do sol quente. Continua assustador ser tão frágil. Eu não aguento mais ter estes momentos em que sou feita de gato e sapato por mim mesma.
Tudo acontece dentro. E depois, passa uma semana ou duas, eu vivo bem de novo, como se nada tivesse acontecido. Dá pra crer? Não é que eu quero que o episódio dure mais, não é isso, vê se me entende, ninguém bem certo da cabeça ia querer que uma coisa tão ruim durasse, mas sendo as coisas como são a ansiedade me escapa fácil. E ilesa. Eu nunca consigo pô-la no microscópio para analisar bem do que é feita. E tudo que mais me angustia no mundo é feito dessa matéria etérea. Uma matéria que não consigo estudar para ficar especialista. Na qual finalmente reprovarei sem apelo ao conselho de classe nem recuperação, nota zero, vamos repetir este ano e ver se agora você aprende.
Minhas angústias mais graves são estas pedras sagradas nas quais não posso pisar por muito tempo - ou porque são lisas, ou porque afundam, ou porque parece que meus dedos vão se quebrar só de tocá-las, que pedra com pedra a gente sabe que pode dar nisso.
Se eu passasse a mão no telefone e te contasse na hora pareceria o que é: um episódio de muito descontrole físico e mental. As sirenes soando com luzes que piscam todas juntas e a banda dos por quês que não para de tocar bumbo bem desafinadamente na boca do meu estômago. Então guardo para administrar depois. Administro como posso. Choro e “passa”. A ressaca do momento de aperto dura uns dias. E quando eu chego aí já passou. Omito a gravidade. Quase esqueço do tamanho. Posso escrever, claro que posso, mas dizer é um pouco longe de sentir. Escrever fica no campo das organizações. E uma crise de ansiedade, Selma, só o que não é, é organizada.
Pensando bem, que alegria é me esquecer um tanto (que se eu ficasse em estado perene de ansiedade ou só de lembrança vívida daquele momento, que seja, eu acho que me internava à vera no Cruzeiro por uns 30 dias).
A resistência em ser medicada é para tentar não ser exilada também do bom de mim. Não quero fugir da vida, seja lá o preço que me cobre. Isso é uma coisa mais bonita de se dizer no papel do que no meio de uma crise de ansiedade. Ainda assim. Não quero “estabilizar” o humor se em troca eu for ganhar uma mansidão apática que me deixe anedônica. Só que no fundo, Selma, um pouco apática eu já me sinto. E outro pouco eu tenho estes dedos cravados e travados contra a cama. Não sei se você me entende. Eu queria mesmo era uma vacina. Ficar imune. Será que o Joaquim não me arruma uma com aquele amigo médico? Se conseguir me avisa que eu te deposito os trocados para ressarcir. Dá um beijo nas crianças e avisa que eu vou chegar dia 07 no ônibus das 5. Agora falta pouco. Estou ansiosa para te rever. Parece mentira.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Melaleuca


Ouvir uma verdade enquanto se vive uma potencial mentira pode ser devastador. A verdade entra no ouvido direito, arde os miolos bem onde dói e procura atordoada a saída por outro buraco desse labirinto de ossos, carninhas moles, cartilagens, fluidos e cérebro. Parece não haver espaço para que percorra — a verdade parece três vezes maior enquanto se acotovela pelos corredores da cabeça da gente a duzentos por hora sem poder voltar por onde entrou. 
É assim, a verdade traz a mesma pressão craniana que a de um espirro trancado. Parece que vai nos carregar junto, nós e nossas inconsistências morais. Nós e cada partícula de negação assentada como dogma bem no meio do juízo. Nós e a construção. Nós e o assoalho antigo que a arquiteta mandou arrancar para ficar moderno. Nós e esses casacos pesados roídos de traça que ainda estão bons pra usar em casa porque imagina quem não tem nem um desse. Nós e esses móveis que ainda se organizam como se organizavam as mentiras que não eram mentiras quando foram dispostas assim, estáticas, nestes cômodos.
Tantas vezes guardei no fundo de um armário empoeirado a versão de mim que me daria mais trabalho no manejo, acho que entendo, eu juro. Acho que entendo. Quanta vergonha teria evitado nesta vida se aquele paninho puído estivesse encobrindo o espelho pra que eu não visse qualquer verdade entrar e zunir. Aí então conseguiria disfarçar bem. Sem precisar ajustar a pupila pra ver a beleza no caminho da sombra. E depois o risco de afogar sem boia. Ou o tombo sem rodinha na bicicleta.
Apita o timing do relógio e da constância. Essa impressão de já ter passado o tempo do desatino. Esse braço enganchado no certo da vida como um pilar, um fraio, um mastro, como se alguma coisa nessa vida fosse cem por cento certa se a gente planejar bem, para não ter que ver se alcança o que pode vir depois tendo que dar um salto de fé. Ou de coragem.

Deixa a verdade pros jovens.
Eu vou amassar um pacote de calaboquitos e depois deitar em paz com os farelos.

Tara

É o peso que as coisas têm
só de existirem

ou

É o preço que as coisas não têm
só de existirem?

quarta-feira, 26 de março de 2025

Tome notas - sabor limão

Faixa dupla

O tempo
de dono
de caminhonete
vale sempre mais
que o tempo da gente 


***

Minha cama é box
Descabe assombração no baú
Pero pies cubiertos
Que las hay, las hay


***

Dia cinza
Me drena energia
Quand’outono volta
‘inda não soube ser urso

Nuvens
em cima da cabeça
Não me deixam
com a cuca fresca


***

Meu saco
de guardar vergonhas
Às vezes fura
E esparrama
Pelo chão


***

Depois de tanta objeção
As coisas ainda estão
Como são


***

Contrariada
Ela é péssima


***
Desinvestir.