terça-feira, 10 de março de 2015

Carta para a Claudia de 10 anos atrás

Claudia de 2005,

Vou escrever muito, porque ainda somos prolixas.
A mudança foi dura, mas você já está se habituando. Se ainda não se deu conta, a vida agora vai ser por aí mesmo - nesta escola, com estas pessoas - e é bom que comece a sair de vez do casulo, porque ninguém resiste à adolescência sem meia dúzia de amigos por perto. Alguns amigos que você vem fazendo resistirão ao tempo e à distância. Sim, voltaremos. Por incrível que pareça, ir embora de novo vai deixar tanta saudade ou mais do que você está sentindo agora.
Faça o favor de acordar um pouco mais cedo e ser um pouco mais pontual. Não adianta nada ser boa aluna e ter cinco registros por mês no livro negro da diretoria porque chegou dez minutos depois do sinal. Quem sabe, caso você comece já, nosso relógio biológico aprenda em tempo de não perder o ônibus para o estágio e para a faculdade tantas vezes.
Faça mais alguns anos de dança, um pouco de teatro e violão - você vai se convencer de que a vida ficou corrida demais pra essas coisas depois, mesmo sem razão. O tempo vai passar e você vai achar que não tem mais idade pra recomeçar. A boa notícia é que vai sobrar sensibilidade suficiente pra se encantar com a arte em suas pequenas demonstrações, então insista.
Continue lendo. As letras guiarão o teu futuro, bem mais que os números. Não, não seremos escritoras, este é um devaneio adolescente. Você se convencerá a escolher algo que pague as contas com mais facilidade e, se quer mesmo saber, será ótimo. Vai te realizar. Mas continue achando que ser escritora é possível, pra que uma porta profissional alternativa e romântica fique aberta no seu caminho. Escreva sempre que puder. Logo virá a coragem pra criar um blog e começar a publicar informalmente, e isso tornará sua adolescência mais agradável.
Deixe dessa bobagem de dizer que não quer casar nem ter filhos. Aos onze anos ninguém deveria mesmo querer ou poder, só que não tem sentido ser tão irredutível e reproduzir isso aos quatro ventos antes de dar o primeiro beijo na boca e menstruar. Não é uma convicção que tenha algum respaldo, entende? É importante que os discursos tenham algum fundamento pra que te deem ouvidos e valha quebrar o silêncio.
A ideia de ter filhos ainda nos assusta - e, se digo "nós", é porque sei que você é parte inseparável do que sou agora. Mas casamento, veja você... Aos vinte e um já se começa a cogitar a hipótese, prova de que o tempo pode mudar muita coisa e afastar alguns medos, lição que serve pra você e pra mim.
Eu desejaria que você pulasse de "nenhuma" experiência amorosa direto pra segunda da nossa vida. Da segunda pra quinta e assim por diante. Entretanto, isso seria um desrespeito com o seu livre arbítrio e nós ainda não toleramos censuras tão graves conosco. Então... Envolva-se! As decepções nos relacionamentos virão, mas te darão a noção real do quanto são frágeis as certezas que pensamos ser eternas na adolescência. São justamente essas experiências frustradas que servirão de ponte para o amor mais recente, mais maduro e mais incrível das nossas vidas.
Sem desconsiderar as ocasiões em que a intuição manda dar dois passos atrás, continue confiando nas pessoas e demonstrando afeto: é melhor se sentir leve do que se sentir prudente. Isso não significa, em absoluto, que você deva se importar com popularidade. Assuma o risco de ser anti-heroína, se for preciso, para manter-se íntegra. Sempre haverá quem fique do seu lado porque conhece e valoriza seu lado bom. Contrarie a lógica: candidate-se a oradora da turma no ensino médio, e não na faculdade. Porque não tem problema perder pra Perla e chorar de emoção com as coisas que ela vai dizer sobre amizade entendendo tanto do assunto, desde que você evite o choque de chegar na vida adulta tendo a exata medida do quanto ser fiel aos ideais às vezes pode tornar uma pessoa non grata pra maioria.
Você perderá um ente querido, e o primeiro contato com a morte é mais brutal que qualquer infortúnio imaginado. Não vou contar pra você quem morrerá. Não quero que sofra por antecipação e tenho esperança de que, com a certeza de que não será mais possível ter a presença física de alguém que você ama, desde logo você aproveite ao máximo cada segundo com aqueles que são importantes. Logo depois de uma perda, essa necessidade de aproveitar o tempo com quem amamos é forte na consciência, e em algum tempo infelizmente ela esmorece. Tente preservar esse ensinamento que o reflexo do choque provoca.
Outro dia comi cenoura de livre e espontânea vontade e lembrei de você. Muitas coisas improváveis acontecerão em dez anos e depois, e eu só preciso que você continue disposta a ser feliz com a vida que leva e grata pelas oportunidades que tem. Pra que isso se mantenha sempre fresco na minha memória. No meio de tantos conselhos e pedidos, preciso admitir que creio que faremos história. É porque eu confio nas experiências que você me trouxe que eu não tenho medo de me comprometer a levar boas experiências para a Claudia de 2025. Superestime menos as coisas ruins e elas ficarão menores. Sempre há algo incrível prestes a acontecer e nossa história é, entre tantas outras, mais uma prova disso.
Tenho orgulho do passado que você construiu pra mim e desejo que, com essa carta, você também possa ter orgulho do que nos tornamos.

Obrigada pelas escolhas certas e erradas que nos trouxeram até aqui. Hoje tenho certeza de que é exatamente onde deveríamos estar.

Claudia de 2015.

4 comentários:

Katia Regina Koerich Fronza disse...

Simplesmente fantástico. Fiz uma releitura imaginária de 10, 20, 30 anos atrás que me constituíram aos meus quase 50 atuais!

Anônimo disse...

Ri, chorei e viajei no tempo relembrando de cada uma dessas fases!

Feliz em fazer parte da história da Claudia de 2005, da Claudia de 2015 e certamente de todas as Claudias que virão ao longo dos anos.

Amo você ♥

Thay

Kleine Schwarz disse...

Texto impecável! Os elementos que compõem a narrativa são os melhores possíveis: gratidão, zelo, determinação, sucesso, amor... Se fosse possível ultrapassar a barreira do tempo, ou melhor, quebrar as regras do paradoxo quântico imposto pela lei da Física, e voltar há 10 anos atrás, tenho certeza que a Claudia de 11 anos ficaria estupefata (no cara a cara) com a Claudia de 21 anos! A primeira palavra seria OBRIGADA! Obrigada por cuidar bem de mim (do corpo, intelecto, valores morais e éticos). Como qualquer garotinha de onze anos, os olhos brilhariam de emoção por saber que com apenas 21 aninhos já é advogata, desculpe-me, advogada! Com o dedo em riste torceria o nariz e diria que a Claudia de 21 anos apenas está equivocada quanto ao sonho de ser escritora. Como assim? Compilando todos os textos do blog não resultaria numa obra maravilhosa? Sim, a Claudia de 11 anos abraçaria bastante efusiva a Claudia de 21 anos e diria alto e bom som: Obrigada por tudo!

Karla Mikoski disse...

Ainda acredito no seu potencial de escritora! Seus textos causam uma identificação imediata. Adoro! Bjokas