sábado, 9 de novembro de 2013

Catedráticas

Nunca entrei na Catedral de Rio do Sul. Há quase um ano, com a frequência dos dias úteis, dobro uma esquina depois do Terminal Rodoviário e nesta esquina se encerra uma expectativa cotidiana. Tomo fôlego duas vezes e descubro se o sinal está aberto ou fechado para mim, e se terei ou não de esperar para cruzar a avenida.
Se não espero, chego adiantada na calçada contígua ao muro de pedra, que me provoca os mesmos pensamentos com suas fugas pretas desbotadas entre uma pedra e outra. Sim, se estou agitada eu só reparo no muro. Não sou católica das praticantes. Ignoro as escadarias. Especificamente ali, apressada, não sou mulher de joelhos para promessas ou perdões. Quase sempre eu sinto cheiro de vela queimando e isso me faz pensar no significado de súplicas, milagres e gratidão. Uma igreja inspira muita gente a ser melhor, penso. Camufla muito moralismo barato também. E em última análise eu refilosofo para dentro sobre religião, e uma expressão como ópio das massas me ocorre.
Se o sinal está fechado para mim e espero para atravessar, fito tímida e de cabeça erguida a arquitetura alva que simboliza a instituição de tanta influência. O relógio impreciso que badala tantos pecados inventados e depois confessados, bençãos concedidas, acordos de cavalheiros para a salvação da própria maldade e a glória de uma vida que promete ser eterna para os que creem nela. O sino ecoa pela cidade como uma bússola que aponta o norte da conduta dos fiéis, em uma demonstração de imponência nada pontual.
Dizem que quando entramos em igrejas pela primeira vez e fazemos então um pedido, ele se realiza. Catedráticas e, talvez por isso, poderosas. Procedi ao ritual uma única vez, quando era mais jovem e mais temerosa, em uma pequena igreja de interior, vazia e sem muita cerimônia. Não lembro qual foi meu pedido, e assim também não sei se ele se realizou. Provavelmente era um pedido de longo prazo e um tanto ponderado, pela força que eu reconhecia que profecias como essa poderiam ter, na época em que o fiz.
Hoje em dia sou mais relutante, mais cética com muita coisa. Mas a dúvida que circunda essa crendice me inspira, por isso dou crédito a ela. Então todas as muitas igrejas em que ainda não entrei preservam a possibilidade de realização dos meus desejos. Ao seu modo, renovam minhas esperanças nos sonhos. Curiosamente, mesmo que não entre nelas.
A Catedral de Rio do Sul simboliza muita coisa para muita gente, desde o poder de uma instituição ao atrativo turístico. Para mim, aquela Catedral de portas abertas guarda em si, entre tantas, uma expectativa em especial, que não se encerra. Reservo para quando entrar ali meu melhor pedido. Seja ele qual for, quando me vier. Aguardo a revelação que ainda nem reconheço e o momento sublime em que conferirei àquele lugar a chance do poder realizador de meu anseio mais profundo.

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