terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Um momento em que é possível

Acordei tarde com o sol (da música do Cazuza) me socando a cara pelo vão entre a janela e a cortina. Almocei e demorei um tempo pra perceber: Onde eu estava, quem eu agora era, o que tinha acontecido e a postura que a vida me exigiria outra vez. Como se houvesse tomado um porre muito grande de alguma coisa forte, e agora, num lampejo de consciência, recobrasse os sentidos todos de súbito. Tardou que eu tomasse um banho longo e me aquietasse por dentro. No final da escovação de dentes eu me lembrava daquela frase anônima, que rimava bem, sussurrando no meu ouvido: Lave o rosto nas águas sagradas da pia, nada como um dia após o outro dia.
A verdade é que nem a Carol nem a minha mãe mereciam minha companhia no final daquela tarde com a mesma blusa vermelha e a mesma cara péssima esmagada atrás dos óculos escuros do dia anterior. Nem que fosse pra cantar até a garganta doer, assistir às escolas de samba na televisão ou comer cachorro-quente. Elas mereciam o melhor de mim, mas mais que isso, eu merecia o meu melhor. O meu cotidiano merecia o melhor. E a melhor escolha era rir daquele dramalhão mexicano, tão exagerado, tão supervalorizado. O dia seria bom dali pra frente porque escolhi que fosse. Porque as rédeas da minha felicidade estavam nas minhas mãos - elas, afinal, sempre estiveram.
Meu metabolismo acelerado fez com que quase tudo se recuperasse naquelas vinte e quatro horas. Eu era feliz de novo, então. Tinha passado rápido. Li Clarice, mas a tranquilidade no final daquele dia merecia que eu escrevesse. Escrevesse mais, escrevesse bem, escrevesse leve. E terminasse bem. Superei minha dose de aversão ao Paulo Coelho e revisitei velhas palavras que agora transcrevo, por estar certa de que, de tudo, só fica em mim o que é bom e o que é raro:

"Ele começou a falar, e eu não conseguia concentrar-me direito. 'Devia ter me vestido melhor', pensava, sem entender a causa de tanta preocupação. Ele me notara na platéia, e eu tentava decifrar seus pensamentos: como eu devia estar? (...) 
É preciso correr riscos, dizia ele. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça. 
Todos os dias Deus nos dá - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos esse momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual ao amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Este momento existe - um momento onde toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres. 
Às vezes, a felicidade é uma benção - mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia nos ajuda a mudar, nos faz ir em busca de nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões - mas tudo isso é passageiro, e não deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trás com orgulho e fé (...)
'Se a dor tiver que vir, que venha rápido', eu disse. 'Porque tenho uma vida pela frente, e preciso usá-la da melhor maneira possível. Se ele tem que fazer alguma escolha, que faça logo. Então eu o espero. Ou o esqueço. Esperar dói. Esquecer dói. Mas não saber que decisão tomar é o pior dos sofrimentos.' (...)
- O mesmo se passa com o amor - continuou. - Já existia antes, e continuará para sempre.
- Parece que a senhora conhece minha vida - disse eu.
- Todas as histórias de amor têm muita coisa em comum. Eu também passei por isto em algum momento da vida. Mas não me lembro. Lembro que o amor tornou a voltar, sob a forma de um novo homem, de novas esperanças, de novos sonhos.
Ela me estendeu as folhas de papel e a caneta.
- Escreva tudo que está sentindo. Tire de sua alma, coloque no papel, e depois jogue fora. A lenda diz que o rio Piedra é tão frio que tudo que nele cai -  folhas, insetos, penas de ave - se transforma em pedra. Quem sabe não seria uma boa idéia deixar em suas águas o sofrimento? (...) Não se esqueça de uma coisa - gritou, enquanto se afastava. - O amor permanece. Os homens é que mudam!
Eu ri, ela me acenou de volta.
Fiquei olhando o rio por muito tempo. (...) Então comecei a escrever.

(Trechos do livro: "Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei". Página 7, 8 e seguintes, porque me empolguei na leitura. Disponível na íntegra aqui).

2 comentários:

Carolina disse...

Eu gosto.

De Paulo Coelho. Virou modinha não gostar, ao meu ver. E eu sou do contra. Mas nem só por isso, também... Eu sempre devorei os livros dele, e assim como Twilight - EW!(sinto muito mais pesar em ter AMADO Twilight do que Paulo Coelho, dica.) - faz parte de uma época boa da vida.

Quanto ao amor e sua volta, Hm. A vida é um eterno esperar, parece às vezes.

Sou C! disse...

Eu sempre achei Paulo Coelho meio auto-ajuda, mas sei contar nos dedos de uma mão os livros que li inteiros.. Então, talvez minha aversão não tenha razão de ser, principalmente porque o Na margem do rio Piedra tem esses trechos valiosíssimos. É possível que os demais livros também tenham a sua beleza, então.

Sobre o amor ir e voltar, ao publicar o texto eu logo me lembrei de Poeminha Sentimental, do Quintana (não sei se conheces, mas vou transcrever, de qualquer forma):

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.