quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Vm oor pcaqétr n guiaaã i amnmonnpti iat oem.

Podemos durar além do nosso tempo se conseguirmos habitar no coração e na memória daqueles que de alguma forma, em algum lugar ou em qualquer momento fomos capazes de iluminar. 

A frase anotada em letras miúdas no rodapé de uma agenda antiga da Tia Carla ecoa em minha memória há pelo menos uma década, com todas as palavras e todas as vírgulas. Tanto, que foi capaz de servir de resposta muitas vezes à pergunta "qual sua frase preferida?" dos "cadernos de respostas" que tardiamente respondi enquanto cursava o ensino fundamental. Não gravei com precisão o nome do autor, e não a vi referenciada em nenhum dos - míseros, veja você - quatro resultados que o Google oferece. Então, talvez seja de Leo Rosten, talvez de Leo Rostenn, com dois enes. Mas a essa altura pouco importa a referência bibliográfica, já que o enunciado diz muito mais sobre mim e sobre o meu mundo do que sobre seu autor.
Talvez haja em todos nós um desejo sincero de ser lembrado por seus feitos profissionais, científicos, pessoais. Contudo, a frase sempre me pareceu mais profunda. Sempre me pareceu conter um norte a ser seguido, mais sincero e menos egoísta do que a realização pessoal individualizada, pura e simples, que todos nós ambicionamos instintivamente em um momento ou outro. É por isso que a estimo tanto.
Só quem nos marca e ilumina verdadeiramente merece eternizar-se em nós, vivendo em nossos corações e em nossas memórias. Às vezes, isso acontece de repente. Em regra, leva tempo. Porque iluminar alguém é tarefa nobre, que só se pode cumprir com uma certa disposição amélie-poulainiana*. Venho tentando exercitar esta pretensão, ainda que muito timidamente, com o passar dos dias. Há exemplos tão sutis a esse respeito, que chegam a ser inefáveis, mas prometo tentar ser específica. Na última semana, por exemplo, usei a criptografia para ocupar os pensamentos de uma pessoa o máximo possível. Já fiz isso outras vezes, é verdade, mas é a primeira vez em que o objetivo me parece altruísta.
Gosto da ideia, então vou contá-la: Codifiquei uma mini-mensagem para distrair seus pensamentos das coisas tristes e negativas dessa vida. Talvez esteja funcionando. A curiosidade foi um passaporte para relembrar que há ordem no caos, e que a gente pode achar o rumo certo mesmo que tudo pareça muito difícil, basta mudar de perspectiva. Ou, ao menos, esse foi o intuito. O meu jeito um pouco diferente, e talvez estranho, de dizer que estou aqui, a postos, disposta a dar o meu melhor. Sorte a minha se o objetivo prosperar, porque terei tornado os dias dessa pessoa um pouquinho melhores.
Sabe, se eu tivesse certeza que esse texto pudesse servir para algo além de exaltar meus tão pequenos feitos, que pretendem ser doces, eu escolheria que ele servisse para habitar os corações e as memórias das pessoas. Encarem a frase que conheci há uma década, e todas essas linhas, como uma gentileza que todos nós merecemos, apesar das durezas da vida. É no exercício destas pequenas coisas bem intencionadas, que não pretendem outra coisa senão ser bonitas, que duramos além do nosso tempo. Que a gente nunca canse de acreditar que é por nossa melhor versão que o mundo merece lembrar de nós.


*amélie-poulainiana - Referência à personagem "Amélie Poulain", garota que realiza pequenos gestos para adoçar a vida das pessoas, do filme francês "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain".

Nenhum comentário: