sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Na minha rua, número zero


O ônibus parou em frente à relojoaria do centro às 19h36min. Agrolândia, que já me serviu de paisagem pra uma pré-adolescência inteira de residência, tinha um ar diferente no fim daquela tarde de janeiro. O destino era a casa da Alexsandra. Um reencontro de amigas com cachorro-quente e batida de vinho. Ah, e risadas! O reencontro renderia muitas risadas, eu tinha certeza.
Enquanto eu desembarcava, degrau por degrau, depois ia à padaria, atravessava a faixa de pedestres e caminhava por ruas bem conhecidas com a minha saia vermelha, revendo algumas caras antigas e vendo outras inéditas, lembrei de tudo que gostaria de viver aos doze anos de idade.
Assistir aos carros, bicicletas e pessoas passando tinha o cheiro daquele passado em terra proximamente estrangeira... E aquele passado, nem tão próximo assim, acolhia uma leve nostalgia dos planos pequenos e bobos que deixei de realizar. Imediatamente depois, vieram ao meu encontro as memórias dos planos que pareciam gigantes.
Brasileiríssima, sou daquelas que sempre teve o sonho da casa própria. Mas se a casa é o lugar pra voltar, mesmo considerando meu retorno breve a Agrolândia, meu sonho sempre teve outra cara. Inúmeras vezes, acreditei que meu lugar pra voltar fosse alguém. Isso mesmo, alguém com quem o coração se sentisse tranquilo e leve.
Assim, minha casa própria era o sonho real da companhia de alguém incumbido de proporcionar minha tranquilidade, talvez desde os doze anos de idade. E, estando em casa, eu sempre me senti e sempre soube que me sentiria maravilhosamente bem. Tão bem, que perdi as contas de quantas vezes fugi de casa só por saber que teria pra onde voltar. Só pra ver minha casa-pessoa me receber de braços abertos naquele retorno - retorno que sempre chegava, até que eu abandonasse aquelas casas, já em ruínas.
O ônibus parou em frente à relojoaria do centro. Mas poderia ter parado na frente de um monumento histórico, na estrada de terra que dá pra um sitiozinho no interior do interior, em uma mini-metrópole do Alto Vale, no litoral, em outro país. O destino era a casa da Alexsandra. Mas poderia ser o meu local trabalho, a casa de um novo amigo, um parque de diversões. Porque acho que o tempo me fez perceber, e rematou dentro de mim, naquela caminhada no fim da tarde de janeiro, que na verdade minha casa não é e nunca foi uma pessoa sequer, ou um lugar específico.
A casa da gente não é o ambiente, embora talvez ele contribua em alguma medida. Não é também a companhia, embora talvez algumas companhias contribuam na sensação de conforto e aconchego. Escolhemos a casa própria que queremos ter e eu acho que descobri que, no fundo, o que eu sempre quis foi residir naquela sensação estranha de estar em paz com o que estou vivendo, certa de que escolhi o melhor caminho.
Porque quem faz da própria felicidade sua casa não teme mudar de vida, de ideia, de cidade ou de planos. Sempre se sentirá em casa. Então eu, realizada, virei morada de mim. E a alegria, mínima que fosse, de qualquer instante, transformar-se-ia na casa própria que sempre sonhei... Aquela casa pra onde eu voltaria quando menos esperasse, na sinceridade do meu melhor, mais fortuito e mais sincero sorriso.

Um comentário:

Arieli disse...

Que texto lindo. Parabéns. Obrigada por compartilhar. Ajudaste-me a entender algumas sensações.