segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As paredes de um sonho¹

[...] Horizonte

Você enfia a mão no meu cabeço e bagunça todos os fios, como faz desde a primeira noite em que ficamos juntas. Feito um gato, eu me ofereço esticando o pescoço e ronronando enquanto continuamos a andar - e a sonhar - pelo mato.
Talvez o único antídoto para esta dolorida jornada humana sejam os sonhos - sem eles não levaríamos à boca uma xícara de café pela manhã e não desceríamos um lance de escada. O sonho é a pele da alma dos apaixonados.
Enquanto me entrego ao devaneio que só a mistura de vinho e frio permite, você continua falando a respeito da casa. Está agora colocando os batentes e as esquadrias, aparentes e de madeira. Tem ainda uma pequena adega, muito vidro e uma bancada onde eu vou poder cortar os tomatinhos do macarrão alho e óleo e, ao mesmo tempo, ver você lendo na sala. Tem os cachorros lá fora e aqui dentro, embora eu continue a reclamar das patas sujas no sofá e você continue a me ignorar dando ampla preferência à vontade dos cachorros.
Em menos de duas horas ela fica pronta, nossa casa no mato - e eu entendo que melhor que sonhar é sonhar junto. Fico pensando que um amor morto é aquele que não sonha mais junto.
Você volta a sentar na pedra e eu agora vejo você inserida no horizonte de montanhas ao fundo, tudo parte de uma mesma substância, que é o que somos, que é o que temos que ser. Quero fotografar, mas minhas mãos, no bolso do casaco, estão congeladas: subjetivamente, pela beleza daquele momento; objetivamente, pelo frio.
Eu estava dormindo a primeira vez que sonhei com uma casa com vista para o infinito. No sonho, eu tinha uns 60 anos e tomava uma xícara de café olhando pela janela. Sei que fazia frio porque eu usava um casaco branco de lã e gola alta. Atrás de mim, uma escrivaninha com muitos livros e uma máquina de escrever. A imagem veio como em uma fotografia superexposta: as cores eram fortes e vivas. Eu tinha menos de 20 anos e nenhuma perspectiva de virar escritora ou de conhecer um amor tão intenso.

A vida fazendo sentido

E agora tudo está ali comigo: o sonho mais belo que já sonhei querendo acontecer, você - um sonho tão espetacularmente absurdo que nem sonhado tinha sido - e aquele monte de picos e vales, os altos e baixos da experiência humana.
Mais uma vez, você coloca a mão em meu cabelo e começa a despenteá-lo. Mais uma vez, feito um gato, eu me entrego e coloco a cabeça em seu colo. A vida vai fazendo sentido.
Amanhã é segunda-feira e o mundo vai tentar ofuscar todos os sonhos - telefonemas fora de hora, contas bloqueadas, o processo do empresário safado e esperto que cai sobre seus ombros, a grana que não vai dar pra pagar tudo, o portão da garagem que quebra, a obra do vizinho, o ralo que entope.
O grande truque é não deixar o mundo entrar. O grande truque é erguer paredes sólidas - mesmo que sejam de barro -, fechar a porta, acender a lareira, pegar uma taça de vinho e continuar olhando para o horizonte de montanhas. O grande truque é jamais perder o sonho de vista, nem mesmo o mais maluco deles, porque, no fim, é ele que nos terá levado a algum lugar onde tudo fará sentido.


¹ MILLY LACOMBE,  in: Revista TPM, agosto de 2011, ano 10, n. 112, pp. 112-113. Editora Trip.

Nenhum comentário: