sábado, 18 de junho de 2011

Menos inadaptável

Constato diariamente que sou limitada. Imenso. Logo, tomo por breve objetivo de vida: Menos histérica. Menos ciumenta. Menos inconstante. Menos neurótica. Menos controladora. Menos agressiva. Menos emocional. Menos culpada. Menos dramática. Boas metas, mas para mim e para a minha personagem-personalidade, imensamente desafiadoras. Diluídas nos últimos tempos, seriam parcialmente cumpridas - uma a uma - para o bem de todos e para a felicidade irrestrita do meu coração.
No fim do percurso, deixaria de lado esse resquício de comportamento depressivo que me aflige de tempos em tempos. Seria sensata e completa. Ponderada e adulta. Elenquei quase tudo que de fato me intrigava em mim. Quis mesmo que só as virtudes permanecessem - o mais, seria menos. Entretanto, algo sempre nos falta. Caio anunciava: "...guarde sem dor, embora doa..." Engoli as faltas que me doíam lembrando de Caio e tomei cinco minutos no dia, enquanto esperava o ônibus, para um autismo voluntário a fim de perceber se só eu fico meio desajeitada entre as coisas que me faltam, sem defini-las, ou se todos são assim. Ouvi mil conversas e cheguei a conclusão nenhuma, porque as pessoas não mostram o que lhes falta aos desconhecidos. Talvez elas nem mesmo saibam, como eu. Então decidi que pouco importava. Desesperei.
Que é que em mim era ausente? O que não havia e era imprescindível em mim para ser completamente feliz, às vezes!? Coragem, ânimo, poesia, razão, controle? Foi quando adicionei à lista de objetivos: Menos egoísta. O ditado de que nada é perfeito é mais que secular. Não seria minha experiência de menos de duas décadas que mudaria qualquer coisa a esse respeito. E algo continuaria me faltando, e eu manteria sempre algumas falhas. Faltaria-me, mormente, a perfeição. O que podia não ser tão ruim, desde que eu mesma me adaptasse a mim.
Sacudi a cabeça teatralmente como se isso fosse desviar meus pensamentos, aproveitando para reorganizar as ideias de forma mais coerente ou inteligível; bem como para fabricar ou traduzir - de modo muito particular - um neologismo a ser adicionado em minha lista, que se sobrepusesse aos demais: Menos inadaptável. Estampar-se-ia em minha mente de forma automática: "Adaptar é evoluir". Então, as coisas pareciam voltar a fazer sentido. Podia levantar da cama e acordar para o sábado.
Sorri ao dar de cara com parte do presente de dia dos namorados que ganhei daquele que ouso chamar novo amor, porque é (porque foi, porque será e porque os primeiros sempre o são) novidade ao inspirar a mudança para menos e para melhor.
Tomaria café lembrando de alguém que me queria sempre feliz, ainda que imperfeita, agora. E eu sentia como se esse amor e como se todos os amores que me cercam pudessem se travestir de qualquer coisa para preencher minhas lacunas. Depois de tantas reflexões aleatórias, elegi a da direita como minha, por motivos óbvios: Era a adaptação materializada. Quando juntos, Wilian certamente tomaria qualquer coisa que não lhe amarelasse os dentes na xícara da esquerda, e eu desejaria que ele se lembrasse - naquele momento e em todos os outros - que possuímos muitas características comuns, mesmo sendo diferentes na forma. E eu me senti satisfeita, pensando que buscaria me adaptar às coisas que não me agradam em mim e no mundo, deixando que meus amores fizessem o resto, porque são inconfundivelmente adaptados aos meus defeitos. Que, portanto, eu conseguiria ser "menos" todas as coisas ruins de todos os dias, em nome de todos aqueles que me são caros. Nós sabemos ser infinitamente mais fácil recobrar a direção quando temos incentivo ao olhar para o lado.
Uma xícara é comum, e se confundiria com outras cem mil xícaras desse mundo não fosse por constituir um par. Uma xícara é menos convencional e descobre as dores e delícias de ser assim a cada uso. No fundo, são apenas xícaras. E este texto-desabafo, é apenas um eufemismo com muitas linhas para confessar que o que mais me agrada em viver é sempre urdir - no meio das crises, do caos, das tempestades internas - uma nova razão para seguir. Seguir sendo menos o que me atrasa. Sendo mais o que me interessa. Sendo melhor, desde que assustadoramente humana...

4 comentários:

Conversando sobre Educação disse...

Eu fico aqui, sem palavras.
Sou fã!

Eduardo Santos disse...

Olá C? Menos inadaptável! Mais parece um texto de antologia de sentimentos, com um deve e haver sem concretização. Como é difícil (pelo menos demorado) confessar o que mais nos agrada viver, quando afinal é só procurar "uma nova razão para seguir" em frente, suponho. Excelente texto que me deixou alguma perplexidade, mas muito gozo. Gostei do seu cantinho, espero voltar breve. Tudo de bom.

Gabriele disse...

Lindo esse post...
Amo sempre, eles me servem de lição, me identifiqueii muito com ele.
beijo

Anônimo disse...

Nem todos os desconhecidos não sabem deixar transparecer suas falhas!E encontrar preenchimentos, mesmo que temporários, mesmo que antagônicos, mesmo que falsos para preencher as lacunas, honestamente, isto é se adaptar!E ouso dizer que quando achares que está tudo preenchido é porque não o está!

Levanto uma terceira xícara em homenagem a este espontâneo texto!


De Kamikasianami (1)