terça-feira, 16 de novembro de 2010

Juliano VP: Bandido por vocação ou por decorrência?

Até onde o meio social em que um indivíduo está inserido é capaz de influenciar em sua conduta? Quais os limites entre a luta pela sobrevivência e as consequências éticas e morais de nossos atos? Estes limites são distorcidos quando somos submetidos a situações adversas do que a sociedade considera “cabível”? Tais questões, ainda que controversas, parecem ser suscitadas quando da leitura de “Abusado: O dono do morro Dona Marta”, do jornalista Caco Barcellos, publicado pela editora Record em 2003, com 588 páginas. A história real do jovem Márcio Amaro de Oliveira, apelidado na obra de Juliano VP, envolve o leitor no sentido de conhecer minuciosamente a evolução da favela Santa Marta – às margens do bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro – bem como no sentido de acompanhar uma realidade que pode parecer remota, versando sobre a ascensão e declínio de um garoto no tráfico de drogas dentro de sua comunidade.
Mais do que críticas batidas ao “sistema” que deixou os mais pobres de lado em todo o Brasil ao longo dos anos, Abusado relata em três partes - “Tempo de Viver”; “Tempo de Morrer” e “Adeus às Armas” - a vida particular de um jovem filho de imigrantes nordestinos atraídos para o Rio de Janeiro com o intuito de prosperar. Juliano VP não é tratado em tempo algum, na obra de Barcellos, como um exemplo a ser seguido, e sim como alguém que busca se tornar respeitado ao seu modo, visando ser herói para “seu povo”, dentro de suas limitações. Talvez não seja possível assegurar que o personagem seja produto das condições históricas a que foi submetido porque nem todos os moradores de favelas se tornam bandidos; mas há de se levar em conta que a representação de homem que remonta à Idade Média aonde a relação social “de onde você vem” impera de forma determinante, ainda parece estar presente nos dias atuais influenciando escolhas movidas por desrespeito.
O protagonista desta reportagem investigativo-biográfica inicia sua trajetória nos cargos mais baixos na hierarquia da “boca” – nome dado à organização criminosa na venda de tóxicos ilegais – com a aspiração mediata de vir a se tornar um grande líder. Cresce observando o tratamento hostil com os inimigos, tratados na linguagem coloquial pelo termo “alemão”; e notando o impasse que os representantes da lei significam para a fundamental obtenção de lucros deste comércio no mínimo inusitado. Aqui, parece adequado traçar um paralelo de como as relações propriamente conceituais de “segurança” e “proteção” divergem nesta delimitação de território chamada favela. A polícia, que para os cidadãos “do asfalto” é sinônimo de garantia da segurança oriunda do Estado, para outros é obstáculo de suas atividades (e aqui não se faz necessário, ainda, mencionar a ilicitude nas relações que, em uma análise mais minuciosa, se caracterizarão como realizadas mediante propina e demais persuasões fraudulentas). A assistência à integridade física é feita não por um órgão competente – porque estes pouco interferem em tais aglomerados humanos – mas sim por revólveres, fuzis e pistolas carregadas por “jovens adultos” e adolescentes que desde muito cedo aprenderam a se defender da violência através de mais violência. E diz-se “jovens adultos”, pois em dado momento o próprio livro trará a informação de que trinta a trinta e cinco anos é tempo de vida demais para um bandido que se considera “bom”.
Abusado traz à tona um fragmento de sociedade com características muito próprias, para além do exemplo da segurança, sobre temas como a religião, a cultura, a sexualidade e o poder. Juliano VP se revelará cristão, levando consigo imagens de santos e velas para rezar em momentos críticos dos combates internos e externos, mas também um frequentador assíduo do “Terreiro da Maria Batuca”, amplo salão que também serviria muitas vezes como abrigo em suas fugas e local de festas com os amigos. Toda a forma de proteção é aceita para os soldados como ele, como o próprio afirmará em dado momento da história. É curioso crer, da perspectiva que vemos atualmente, que religiões teoricamente divergentes – como a Umbanda e o Cristianismo – possam ser invocadas de forma conjunta, mas as circunstâncias apontam para a normalidade de tal ato na vida de VP e de toda sua comunidade. Adepto da leitura de clássicos da Filosofia, desenvolto com a fala e articulado em suas relações, Juliano VP contradiz a ideia primária que se tem de um traficante. A sexualidade, outro ponto conflituoso, inicia precocemente na vida de quase todos os moradores citados enquanto personagens e, por certo, na vida de Juliano. Sua pluralidade de namoradas, seu desapego às relações afetivas duradouras e sua iniciação sexual prematura são descritos como comuns aos seus colegas de quadrilha, assinalando uma visão nula de educação sexual nos moldes que temos. O poder – e leia-se por poder o comando do tráfico – mostra-se para o protagonista como a alternativa de mudar os rumos da própria vida e das condições precárias que o morro Santa Marta possui, incluindo-se aí a falta de saneamento básico, condições de saúde vergonhosas e educação ainda mais debilitada.
Associado ao Comando Vermelho, espécie de organização hierarquizada da criminalidade, Juliano tem nas tantas gerações de administração de sua favela – mortos em combate – e nos ídolos detidos em presídios de segurança máxima uma fonte de sua admiração. Mostra-se muito extremada e belicosa a relação entre os gerentes dos pontos de venda, e é à elite do Comando Vermelho (CV) que os chefes de morros do Rio de Janeiro recorrerão para solucionar os conflitos mais acentuados. Quando Juliano VP, abusado, se torna chefe-maior do tráfico de drogas em seu território, se comunica por meio de cartas com a diretoria do CV com o intuito de informá-los das desigualdades e injustiças que crê terem sido realizadas. Nesta organização que ele adere ao lema de “Paz, Justiça e Liberdade”, princípio norteador e “justificador” dos seus atos criminosos. É de espantar, contudo, a quem vive em uma realidade tranquila como a das cidades de pequeno porte, a violência física utilizada na favela Santa Marta. Parece haver uma forma avessa de praticar a paz, a justiça e a liberdade com “as próprias mãos” e sem nenhum julgamento criterioso, sendo feitos apenas os chamados tribunais, repletos de torturas e execuções para se impor pelo medo. Dezenas de mortos nos conflitos armados são a prova cabal de que o lema do Comando Vermelho, embora muito virtuoso, aliado à prática indica uma contradição.
Há uma exposição sobre a crueldade nas cadeias, a corrupção dos policiais e o evento de grandes proporções que foi a vinda de Michael Jackson à favela de Juliano VP para gravar um clipe. Alguns desses adventos indicam o alarde que a mídia não faz para os dilemas concretos, e sim as esporádicas denúncias jornalísticas para os problemas que no Brasil, infelizmente, parecem ser atemporais. O espanto que o livro de Caco Barcellos causa deixa nítido um esquecimento seletivo das motivações de um criminoso para sê-lo, e isso não se resume à política. Não é possível avaliar ou produzir juízos de valor sobre um criminoso de uma perspectiva tão rigorosamente biológica quanto a de Cesare Lombroso, mas nem tão socialmente determinista como a de Émile Durkheim. Encarar o desafio de interpretar a história de vida de Juliano VP, com neutralidade em relação aos valores pessoais, é respeitar um alguém que teve condições muito reduzidas desde a infância, mesmo que não se compactue com suas atitudes.
“O lado certo da vida errada”, definição dada pelo sujeito-personagem da obra para si e para seus companheiros, parece não ter evitado a sua prisão e morte tempo depois da publicação do livro, relatada em um posfácio. Infelizmente, a condição de Juliano VP em participar das atividades ilícitas da venda de drogas e carregar o fardo de homicídios e roubos jamais se reverteu, apesar de sua intenção declarada ao jornalista Caco Barcellos no curto período em que conviveram proximamente para a produção desta reportagem, que culminaria na terceira parte de nome “Adeus às Armas”. É desesperador pensar que há incontáveis Julianos anônimos pelas cidades do Brasil e que neste exato instante, em uma série de locais, as garantias constitucionais à integridade e à dignidade estejam sendo desrespeitadas, implicando em produzir bandidos “abusados” que praticam crimes para sobreviver. Não se trata de defender o ilícito como válvula de escape a quem não tem condições dignas de vida, e não caberia tomar Juliano VP como um herói da clandestinidade, embora ele o seja nos moldes legítimos da história do morro Santa Marta. O que se pode deduzir, à luz dos estudos da disciplina de Psicologia Jurídica e após efetuar a leitura de Abusado: O dono do morro Dona Marta, de Caco Barcellos, é que um criminoso não se faz por si só, e sim com a somatização de uma série de circunstâncias em sua vida pessoal e de seu caráter, no ambiente em que está incluído e, porque não, umas poucas características predeterminadas. Se for válido refletir sobre as questões supracitadas, também parece sensato concluir que há uma força motivadora para a ambição de se tornar chefe do tráfico de uma favela qualquer: Esta é a oportunidade de ter as condições satisfatórias a que todos almejam e, vez ou outra, se apresenta como a única “porta” para se tornar respeitado. Juliano alcançou um grande feito, sim – com todos os prós e contras imbuídos nisto! – contudo, parece ter sido engolido por seu sonho.

Referência
BARCELLOS, Caco. Abusado: O dono do morro Dona Marta. 9.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Um comentário:

Anderson disse...

resumiu bem o livro. mandou bem mano.