segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Diário de bordo VI

O estágio tem me trazido provas de responsabilidade, de pontualidade, de comprometimento... Acato todas com gosto, porque creio que os estágios são exatamente para aprendermos muitas dessas coisas, imprescindíveis na vida profissional posterior. Contudo, de brinde têm me ocorrido "provas" de fogo, também. Testes para minha compaixão, emoção e piedade.
Hoje recebi, pelo malote, a carta de um detento do presídio que, de próprio punho, redigiu uma folha de caderno suplicando que o juiz lhe tirasse do lugar onde está. Condenado pelo artigo 33, da lei de drogas. Ele implorava, em cinco parágrafos, seu alvará de soltura, expondo seus motivos... Esposa e filhos passando necessidade. Todos sabemos que sua manifestação em nada será determinante... E que o meio mais correto seria uma petição, com fulcro em alguma lei nos códigos que estão aí postos, repleta de muito juridiquês e ausência de erros ortográficos.
Enfim. Sei da importância dos processos penais, da atuação da promotoria, sei do esmero das fases investigatórias, mas sei também que estamos tratando de humanos - por mais cruéis, inescrupulosos, frios, contraventores - ainda e sempre serão humanos. E é por isso que meu coração aperta ao ouvir as algemas ressoarem nos pés dos réus que precisam comparecer às audiências... Ou ao ler as cartas como a que recebi hoje. Por mais clichê que isso pareça, um filme realmente passa em minha cabeça. Não se trata de excluir os axiomas que, sim, eu também possuo a respeito de ladrões, homicidas, traficantes (...) e um sem fim de outros. Trata-se de imaginar a humilhação que uma pessoa deve sentir ao ter que ser carregada como um animal doméstico pelos corredores, por exemplo.
Os conservadores/extremistas/positivistas possivelmente me diriam que, enfim, na transgressão das normas está contida a prerrogativa de todo esse constrangimento. E eu responderia que as normas são necessárias, sim. Que quero ser operadora do Direito, sim. Que acho a "justiça" que a lei positiva parece defender extremamente válida, sim. Mas que os criminosos continuam sendo humanos. E o simples fato de serem seres - humanos! - parece instigar minha sensibilidade e comoção...

Categoria: Desventura

Um comentário:

Anônimo disse...

Ainda não passei por uma desventura de tal magnitude psíquica, mas que um desespero escrito a mão possa burlar qualquer coração não duvido...

Kamikasianami!