domingo, 21 de novembro de 2010

"Algo novo, que fizesse sentido..."

Houve um tempo em que eu quis muito um cabelo com volume, que parasse consideravelmente para o lado direito. A imponência dessa espécie de "penteado" sempre me enchera os olhos. As mulheres que usam cabelo para o lado são sempre as rainhas do baile. Ficam lindas, graciosas e parecem ter super-poderes para que a produção não desmorone. Naquela noite, Adriara conseguiria a façanha de permitir que eu saísse de casa com o cabelo irretocavelmente para o lado, amparada em muito fixador e uma escova enorme. Adorei o resultado, de imediato. Arrumar-se com amigas é divertido. Arrumar-se com amigas que entendem de realizar árduas tarefas tais quais ladear cabelos revoltosos e alinhá-los para o lado que se quer, ainda melhor.
No fundo, acho que no dia da bandeira eu vestia verde querendo encontrar o salvador da pátria na feliz situação de tudo-posso-naquele-cabelo-que-me-fortalece: Quereria aquele que me retirasse a incômoda impressão de coisa oca que o meu peito já não sabia mais abrigar. Queria alguém que honrasse os conselhos de minha mãe. Aquele que portasse um terno, uma gravata e um sorriso sincero me ganharia por quantas horas a madrugada festivamente musical me permitisse. Quanto maior o sorriso, melhor. Quanto maior a frequência e mais fina a sintonia, melhor.
Escolhi lhe acompanhar com os olhos, enquanto ele, timidamente escondido sob conhecidos vitrais quadrangulares incolores, naquele descompasso nada poderia perceber da minha satisfação da sua falta de ritmo sertanejo... Dos seus "tanto faz"... Dos seus "você que sabe"... Da sua não-ingestão etílica... Do seu cavalheirismo... Do seu orgulho estampado na cara por ter a garota do cabelo jogado ao seu lado, inteira. E não sei, com profunda sinceridade, o que mais me movia em sua direção, além daquela satisfação emblemática que eu carregava comigo por todos os motivos torpes - e não torpes! - que eu mesma criara nas últimas semanas e horas. Não sei exatamente o que me levava a permanecer plantada do seu lado com tanto vigor, dadas as possibilidades.
Não saberia afirmar com precisão qual a medida da vontade necessária para respirar e, outra vez, jogar-se enfaticamente ao perceber uma queda mais ou menos inevitável agora tão próxima. Ter disposição para não lhe bagunçar as ideias, para lhe guiar no caminho da rua, para frear os beijos afoitos, para abraçar brevemente. Pequenos aprendizados que custavam pouco, os quais eu não deveria me importar de ser aprendiz...
Ou não. E como a marca registrada da indecisão parece estar impressa em mim com muito mais ênfase do que eu desejaria, talvez não houvesse uma certeza mormente absoluta de estar agindo da forma mais lícita ou enveredando pelo caminho mais sensato. Acompanhá-lo naquela ocasião, de toda sorte, passava longe de significar um solo firme, onde eu pudesse manter meu equilíbrio, minha segurança, minha coerência. Estar junto dele era quase como enlouquecer, dar corda para que o impossível ocorresse, atrair uma centena de expectativas que potencialmente poderiam ser frustradas... Alimentar meus medos... E eu decidi em cinco segundos que esse era um preço que eu pagaria, do salto alto ao último fio.
O cabelo, magicamente elaborado, se desfazia aos poucos sob o calor do salão, e já não era tão importante, desde que uma realidade sem muito mistério a ser desvendado. Foi quando eu lembrei, não sem certo pesar, de que houve um tempo em que eu quis muito um cabelo com volume, que parasse consideravelmente para o lado direito... E de que agora, naquela noite, eu o possuía, e que a única coisa que me cabia era desfrutá-lo com sagacidade. E que sua imponência, por conseguinte, diminuía na medida que as constatações de dominância sobre ele se observavam: Como tantas outras coisas que desejei com coração e vísceras, realizando sem maiores implicações.
Não era de se espantar que eu já não soubesse mais se o desejo latente de possuir um cabelo jogado para o lado ainda me valia para algo às 4:30h. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Só me restava aproveitar os últimos minutos daquele que houvera sido um sincero anseio de um tempo mais ou menos distante: Ostentar um cabelo jogado para o lado. E esperar... A oportunidade e o discernimento - tão necessários! - para saber optar entre ousar penteados novos ou repetir a experiência daquela noite de novembro, inúmeras vezes.


(...) 'Cause nothing lasts forever
And we both know hearts can change
And it's hard to hold a candle
In the cold november rain...
November Rain - Guns N' Roses

Um comentário:

Adriara disse...

20/11-Ja era umas 2 da manhã, quando virei de costas e vi que a morena de cabelo preto, jogado para ao lado direito, estava muito FELIZ. =x
Sabe né? Quando precisar, vem aí. Não sou madrinha mágica mas a gente tenta fazer principes se apaixonarem :p