quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sonho


Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãos invisíveis pelos quatro cantos do quarto. Caio Fernando Abreu

Tudo está fechadinho, sem frestas, sem espaços vagos para que, sei lá, eu possa ocupar. Não tem lugar pra mim na tua brincadeirinha de andar sempre em par. E você dirá que sonho a gente nunca retoma, que me avisou, que eu já devia ter aprendido. E eu vou te dizer que sempre estive meio convicta de que insistir podia não ser tão ruim, e que por isso mesmo posso muito bem me lamentar por ter acordado. E que eu tentei, mas agora... Lamento, meu orgulho não deixa ir adiante, tão unilateral. Voilà. Acabo de desistir de me intrometer nessa vida torpe que você está construindo longe do meu campo de visão.

Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.
...E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Caio Fernando Abreu

... mas tenho pressa, é o último combate. A minha urgência parece não encontrar lugar no meio da sua paciência.

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