quinta-feira, 14 de outubro de 2010

É dia de celebrar. Parte dois. Sete meses depois.

Março de 2010. Descobri que a Maçonaria estava mais próxima do que eu supunha e que a Ordem DeMolay me rodeava. De todos os preceitos que vim a conhecer, houvera sido a proposta “ecumênica” perante as divindades, Deus(es) e suas religiões o que mais me agradou – se excetuarmos, por obséquio, os segredos que ambas envolvem. Nunca fui do grupo dos que tem medo de supostos mistérios, muito menos dos partidários da teoria cega (que, sem titubear, rotulo como conspiratória) de que maçons tem pacto com o que eu, irônica, e os personagens de Star Wars chamaríamos de o lado negro da força. Aviso de antemão que por essas terras tudo é – ou ao menos tenta ser – sem substratos e julgamentos prévios. Está incutido em mim um profundo respeito por tudo que eu não conheço. E estes são os termos, tão importantes, com os quais encerro esta introdução.
Para ilustrar, lembro-me do mês, a hora e o lugar em que, dividindo um colchão esparramado pela sala, confessei a um católico fervoroso, sem delongas, que não acreditava neste exemplo primordial de homem que a minha religião professa (um homem casto, infalível, concebido de uma virgem, que anda sobre as águas, etc...), enfim. Talvez não tenha me expressado bem. Fui mal interpretada. Ou melhor, não fui interpretada. Só pude ver, de relance, um par de olhos verdes condenando instantaneamente o que seria a minha heresia de “brincar com o temor de Deus”. Agradeci por não estarmos mais no tempo da “Santa” Inquisição, embora parecesse o contrário entre aquelas paredes. Acho que quem me ouviu alegou insanidade como resposta a esta dissidência, mas, dessa última, nada posso afirmar com precisão. Aqui não tento me redimir das coisas ditas naquela madrugada filosófica e em tantas outras, nas quais pensei tantas coisas similares. Inclusive, sou levada a crer que a esta altura nada faria aquela companhia mudar de opinião ou refletir sobre algo que, para si mesmo, parece ser incontestável. Fechando esse parêntese, tenho a contar-lhes que emprestei um livro (e terminei de lê-lo nessa madrugada) onde, finalmente, encontrei argumentos claros e sólidos que não fazem restar dúvidas sobre o que penso a este respeito. É o que nos dirá Valdir Gomes, católico e maçom, em seu livro “Igreja Católica e Maçonaria”, segunda edição, p.155-156:

"Há, porém, um sério obstáculo que dificulta a realização do pleno ecumenismo. É que as religiões sempre se julgam detentoras da verdade eterna e imutável. As concessões que se tem feito mutuamente com base em suas crenças comuns não avançam no sentido de tornar mais maleáveis seus dogmas particulares e não reconhecem que a verdade é multifacetada e que o mais importante não é possuir a plena verdade, o que, aliás, é impossível diante da limitação humana, mas abrir-se humildemente à conquista paulatina do conhecimento que liberta (...) A propósito, a plena verdade da Igreja Católica (e de outras igrejas cristãs), é pregada a partir do nascimento de Jesus Cristo, há dois mil anos. Os dogmas impostos pela Igreja, como por exemplo o da Santíssima Trindade e da Virgem Maria e a notória tentativa em interpor o "Senhor Jesus" e os santos e santas, como agentes de intermediação para a comunicação com Deus (o único pai celestial, criador do Universo), não pode ser aceita como definitiva, porque se poderia fazer a seguinte pergunta:
E a humanidade dos 3.700 anos anteriores a Cristo?
Era toda ela pecadora, herege? Não havia nenhuma pessoa boa e justa, que merecesse o céu? Foi toda a população nascida em quase quatro séculos para o inferno?
Provavelmente, lá não haveria lugar para tanta gente!...
É inegável que Jesus Cristo foi um ser humano evoluído, uma figura extraordinária, um líder carismático, uma personalidade forte.
Mas, não podemos negar que também o foram Buda, Confúcio, Maomé, Moisés e Mahatma Gandhi, líderes de outras religiões, para os quais "a verdade deve ser dita com amor e que antes de matar pela arma é importante conquistar pela alma", ao contrário de Átila, Nero, Gengis Khan, Fernão Cortez, Stalin e Adolf Hitler.
As instituições aqui estudadas, Igreja Católica e Maçonaria, contabilizam uma carga de bons serviços à humanidade. No entanto, o entendimento equivocado da Igreja, de que a Maçonaria é uma religião concorrente, a deixa estática e retrógrada, numa posição intransigente e intolerante."
"Para variar", acresento eu.
Antes de ser excomungada preciso esclarecer que nasci “católica apostólica romana”, batizada, catequizada, confirmada, sacramentada. Mas sem medo de duvidar. Nascida em dia de santo, filha da comentarista da missa, neta de ministros e devotos. Mas sem pudor para questionar os mitos/dogmas/contradições/falhas da minha religião. Perdi as contas de quantas vezes fiz sinais-da-cruz, rezei pai-nossos, ave-marias, santo-anjos, crei’mdeuspais e salve-rainhas. Nunca soube exatamente o sentido de todos os gestos e frases, e vezenquando repito vários deles, por hábito. Mas talvez Deus não me queira um papagaio. Talvez Deus me queira raciocinando. Nunca tive plena certeza do real sentido de nenhum versículo da Bíblia e não vejo grandes problemas nisso, porque creio em um Deus que me compreende em todos os meus infinitos dilemas, dúvidas e anseios por entender algumas coisas que talvez transponham o limite do entendimento. Ao crer nesse Deus, nesse Grande Arquiteto do Universo ou seja lá que nome mais queiram dar a ele, creio em uma energia transcendental que tudo cria, tudo move, tudo vê. E que me ama, me perdoa, me protege. Sei dizer que tenho uma fé absoluta, imutável, inexplicável, e que hoje essa fé já não precisa mais de "enfeites".
Há tempos sou movida a alguns segredos secretos e alguns revelados. Tudo porque sou fascinada pelo exato momento - de euforia - que antecede o conhecer, ou o suposto conhecer, bem como pelos encantadores e apaixonantes mistérios que me foram apresentados nesses curtos 17 anos de experiência (o que inclui as Ordens supracitadas e algumas pessoas que delas fazem parte!). E, penso, disso tudo o que deve ficar de lição é a gratidão a um Todo Poderoso que é generoso e infinito por me fazer pensante.

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