quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Diário de bordo V

A sala 110 é mais ou menos do tamanho do meu quarto. Está localizada na primeira entrada do corredor à esquerda para quem entra pela porta da frente do fórum, que é a maioria. Fica na esquina entre o hall da porta dos fundos e a ida para o banheiro, a cela e a cozinha. A porta de madeira envernizada da sala 110 deve permanecer aberta graças a uma pedra de jardim que as crianças sempre tiram do lugar. Como todas as outras portas tem, na parte superior, há ainda uma plaquinha bem à direita, onde é possível ler Contadoria de lado e Distribuição rente à parede, que servem de guia aos leigos.
O balcão de madeira e a portinhola baixa do modelo das que vão e vem limita a área de acesso de quem chega. Visto de fora ele é liso e básico, e só de dentro é possível perceber vários escaninhos. São três por três da perspectiva da minha mesa e seis de largura para três de altura se analisarmos de costas para os fundos, perto dos armários. A parede do fundo é apoio, bem à esquerda, para dois armários médios de duas portas muito altas, que partem do chão e contém prateleiras. Estes dois armários estreitos, que estão sempre fechados, abrigam as capas para os processos e cada prateleira acomoda uma cor, exceto nos casos em que o volume de saída é pequeno, então pode-se chegar a três cores empilhadas. Os móveis são todos brancos.
Ao lado direito dos primeiros armários da parede do fundo está um outro de dimensões maiores, com quatro portas que se fecham próximas uma da outra, formando duplas. As duas primeiras guardam o material de uso diário como clipes, grampos, elásticos, canetas e etc., e as duas segundas são um pouco mais cuidadas porque guardam a garrafa de café, a de leite, e as bolachas que queremos deixar por ali durante a semana. Estas portinhas são um pouco mais altas do que a minha cintura e servem de base para os retângulos de madeira que chamamos escaninhos, para cima. São cerca de cinco deles por altura - o que faz com que eu não os alcance na ponta dos pés - e uns seis de comprimento. Neles estão, além das comunicações de flagrante mais abaixo e os códigos, a pasta de remessa à delegacia e folhas preenchidas grampeadas às guias pagas dos pedidos de certidão, os processos das relações publicadas ou aguardando publicação no diário oficial.
É do status publicado ou não publicado que depende sua estética: Os publicados ganham uma etiqueta de "RELAÇÃO XXX", impressas em caixa alta, negrito, fonte grande, coladas com fita transparente na base baixa de madeira do escaninho em que estão guardados para alertar o pessoal do cartório de que a retirada dali é mais criteriosa; E os não publicados, por outro lado, são identificados com uma folha ofício para cada, com inscrições de pincel azul ou vermelho, com a palavra Relação sempre escrita de modo legível, com letra maiúscula, e o número a seguindo. Esta folha é dobrada e sua aba fica entre dois processos para facilitar a visualização. No vão entre a mesinha onde a contadora deixa sua bolsa e o armário dos processos de relação fica a escada de alumínio com acabamento vermelho de borracha, que serve para alcançarmos os processos de difícil alcance para a maioria de baixinhos que não chegam a 1,70m.
Na parede da janela está encostada uma mesinha com uma impressora e as folhas para rascunho. Ao lado, a mesa em formato de 'L' da contadora é sustento de seu computador preto, suas anotações, seu estojo de canetas e alguns bilhetes com informações que lhe devem ser fundamentais, presos à CPU - dos modelos que ficam em cima da mesa - junto com as coisas básicas: Grampeador, perfurador, borracha, rascunhos, canetas que pegam e que não pegam e marca-texto. É assim também a mesa da distribuidora, ao lado e de frente pra quem chega, que está sempre com um pouco mais de coisas espalhadas por cima. Minha mesa é tímida (a mesa da estagiária é sempre tímida!) e em conjunto com a cadeira eu sinto como se fosse baixa demais. Os computadores são razoavelmente antigos. Posicionei, logo no primeiro dia, para que tudo ficasse bem no centro, pra bem de ter "dois andares" de cada lado para acomodar os processos e petições. Olhar para a esquerda é dar de cara com a janela basculante e a vista para o paredão de pedra cheio de folhagens agarradas. Olhar para a direita é quase como suspirar na esperança de quem chega.
São 20 horas do meu dia para o mundo, e 4 para a sala 110.
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Categoria: Aventura

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