quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Diário de bordo IV

Outro dia me perguntaram, especificamente, onde eu trabalho. E ao sorrir respondi: Na maternidade. O interlocutor nada entendeu e eu fiquei satisfeita com aquela confusão. Enfim, "maternidade" foi o termo que usaram de explicação para o que eu viria a fazer, no meu primeiro dia de estágio. Noto agora que isso passara despercebido no meu primeiro relato do diário de bordo.
A distribuição do fórum por aqui é, na minha concepção (embora pareça definição por associação) o local de nascimento dos processos. As petições iniciais são protocoladas, numeradas, carimbadas, paginadas, cadastradas e ganham a sua própria pastinha e etiqueta para então seguir, com um ato ordinatório, ao gabinete do juiz. E são várias por dia. Praticamente um bebê bizarro ganhando as primeiras laudas e dando seus primeiros passos com a minha ajuda. Todos os procedimentos dali em diante, ou ao menos os que passam por minhas mãos, se farão por meio das petições intermediárias, que receberão protocolo, carimbos, cadastro e se destinarão ao cartório para juntada. E então seguirão conclusos também.
Já são mais de três meses que ajudo a pôr no mundo bebês de pais e mães dos mais variados. Desde os relapsos que esquecem de assinaturas parecendo genitores de primeira viagem até os mais formais, que não deixam uma só dobra ou grampo atingir a estética de seus nascituros. Há bebês que chegam por malote, em péssimo estado, os que chegam por office-boys, e com a modernidade do sistema judiciário, há também os concebidos pela internet. No fim das contas, dada a sentença, cada um desses seres pode até não ganhar vida própria mas, certamente, será capaz de modificar de um jeito significativo a vida de quem os encomendou por essas curiosas figuras barriga-de-aluguel chamadas advogados.
Enquanto não estou apta para realizar o pré-natal em gestantes, receitar medicamentos apropriados ou pôr em prática qualquer tarefa propriamente obstetra, tô adorando ser parteira!
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Categoria: Aventura

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