terça-feira, 15 de junho de 2010

Diário de bordo III

Hoje eu bati o cartão eram 7:52. Foi um milagre eu chegar tão cedo. O horário ficou registrado duas colunas mais à esquerda do que o habitual. Bater o cartão, pra mim, é a rotina também dos dias em que, como hoje, pela manhã, por exceção, eu vou trabalhar. (destaco, não é sempre que o Brasil joga com uma das Coréias pela Copa do Mundo e trocamos todos de turno...) Que seja. Essa é a dinâmica das coisas de todos os dias:
Saio de casa sempre cinco minutos antes do meu horário, porque o Fórum fica a não mais do que isso de distância da minha casa. Da janela da área de serviço, eu enxergo o meu trabalho. E eu gosto de enxergar o meu trabalho pela janela da área de serviço - porque isso me dá condições de sair cinco minutos antes das 13h e ainda chegar a tempo.
Me espio correndo no espelho tamanho família e desço as escadas. Lembro que agora devem faltar só quatro minutos. Vez em quando eu confiro se os brincos são de fato o par, no reflexo que me deseja "bom trabalho" todos os dias. A vitrine da loja do térreo e todos os seus manequins - ditando as últimas tendências da minha cidade - são cordiais ao manter-se imóveis, observando a minha pressa.
Na frente do estacionamento do mercado eu sempre encontro um menininho sardento, de uns oito anos, indo pra escola. Ele tem um corte de cabelo mais redondo que qualquer coisa redonda que eu já tenha conhecido. Sempre me sorri, bem tímido. Me cumprimenta. Outro dia tropeçou enquanto o fazia e eu fingi que não vi, pra saúde da nossa cumplicidade diária. Sempre me despeço dele sabendo que faltam três minutos. Então dobro a esquina e, se der sorte, não há nenhum carro passando. Me esquivo do arbusto que a senhora de idade esqueceu de cortar e tomou conta da calçada. Atravesso a rua de lajotas inimigas dos meus saltos altos, chego na subida do acesso. O morro do Fórum que extrema com a casa azul e enorme do ex-prefeito é o caminho que eu utilizo. E eu sempre me lembro que ele é ex-prefeito quando eu vejo o número de janelas visíveis ao lado direito - que uma mão minha, sozinha, não dá conta de marcar - e penso qualquer coisa acerca da política.
Passada esta etapa, abstraio - porque o tempo é curto entre dois minutos e um, - portanto é momento de cuidar pra não escorregar no limo das pedras, que não vão com a cara dos meus passos desajeitados e outro dia, garoando fino, me deram um tombo com gosto de atraso. Subo - desengonçada, mas atenta - chego no degrau plano e "seguro no carão" a produção e a competência que, mais do que ter, me é necessário - com dezesseis anos... - parecer.
Entro pelo vão entre as grades cinza escuro e a porta de madeira trabalhada, não olho muito pros lados, porque se encontrar alguém, ou terei de dispensar o "tudo bem, como vai?" ou o cartão-ponto servirá de prova do meu descuido. Sigo ligeira para o ambiente no final do corredor, à direita. Falta meio minuto.
A cozinha é um local que eu respeito - por sentir orgulho - ao ler a placa de "exclusivo para funcionários" fixada na porta. E entro lá porque é onde está o meu cartão, o protocolo que o preencherá e a água que está a dois copinhos de saciar o cansaço do trajeto. É o início do expediente. (...)
Categoria: Aventura

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